E então, como será a Copa?

Na hora, vai dar certo
Com problemas, mas não graves
Fiasco total

 
 



    Linotipo
    by Leandro Schallenberger

    Teatro em crise
    05/08/2008




    Ouço muito, em Porto Alegre, as pessoas repetindo como um mantra: “é preciso valorizar o teatro gaúcho”. É insistente o discurso de que, por aqui, em vez de conferir as produções locais, o espectador prefere assistir a uma peça – de menor qualidade, conforme o senso comum – vinda de São Paulo ou do Rio de Janeiro, que tenha, é claro, atores globais no elenco. Em parte, até concordo, pois já presenciei apresentações cariocas horrendas no Teatro São Pedro, com casa cheia. E já assisti ao grupo Falus & Stercus no improvisado teatro do Hospital Psiquiátrico São Pedro, numa maravilhosa performance, aplaudida por um miserável número de pessoas que habitava a platéia.

    Essa história, porém, de que as montagens gaúchas chamam pouco público por causa da concorrência cruel das produções paulistas e cariocas não se sustenta. A peça “Homens de Perto”, dirigida por Néstor Monastério, por exemplo, consegue atrair um considerável público aos teatros em que se apresenta, mesmo sendo uma comédia modesta, montada em apenas sete meses, sem cenário, quase uma brincadeira entre os atores. “Homens de Perto” faz sucesso, ainda que não seja uma peça de alto nível. Aí, pergunto: ela faz sucesso porque o público realmente a aprecia? Ou por falta de opção, mesmo? Afinal, as salas de teatro de Porto Alegre estão quase que totalmente ocupadas por grupos que tentam copiar a fórmula de sucesso de Monastério. É uma epidemia. Deve ser porque alguns realizadores pensam que comédia é um gênero fácil de montar e de pôr em cartaz na primeira oportunidade que algum teatro disponibilizar uma sala.

    Numa cidade que usufrui de poucos e arcaicos espaços para o teatro, é literalmente engraçado perceber que a maioria destes espaços está ocupada por comédias insossas. Dramas também não podem divertir e chamar público? A ousada montagem de “Hamlet Sincrético”, dirigida por Jessé Oliveira, ou de “O Urso”, dirigida por Débora Finocchiaro, comprovam que histórias densas também fazem platéia e, por que não?, entretêm muito. Há, sim, portanto, montagens de qualidade dos grupos daqui, e que chamam público. Se, porém, a maioria das peças locais atrai poucos espectadores, é porque falta nelas algo que faça os amantes de teatro irem vê-las. Elementar, meu caro leitor. A procura pela arte de fora não é um desmerecimento às nossas produções, mas, sim, uma busca por elementos que as peças daqui não oferecem. A escassez de público se explica muito mais pela falta de espaços teatrais aconchegantes e de criatividade dos realizadores locais do que por uma suposta ‘concorrência desleal’ com as montagens cariocas e paulistas que geralmente se instalam no Teatro São Pedro.

    E a crítica de teatro aqui do estado também não ajuda muito. No jornal Zero Hora, o sutil Renato Mendonça, no parco espaço que recebe, faz uma crítica quase que desinteressada, longe de avaliar as verdadeiras qualidades e defeitos de um espetáculo. No Jornal do Comércio, Antônio Hohlfeldt – que outrora fazia excelentes análises no Correio do Povo – tem uma coluna quase invisível, de tão mal localizada que ela é na página. E na revista Aplauso, Luis Paulo Vasconcellos, por ser também um realizador, acaba fazendo uma crítica sem autonomia.

    O teatro porto-alegrense pode não aparentar, mas está em crise. Principalmente devido à falta de criatividade de alguns realizadores. Os poucos críticos, que deveriam ter a exigência como marca de seus trabalhos, parecem cada vez mais acanhados. Embora alguns não achem isso, o teatro ainda é uma arte mobilizadora, mesmo em plena era da TV, do cinema e do computador. Um pouquinho de inspiração, enfim, faria muito bem. Fecha o pano.


    leandro.s@minimomultiplo.com



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