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    A micareta


    Não adianta, cara. Você fica aí com esse bonezinho inglês, esse cavanhaque, esse cachimbo no canto da boca e esses óculos para sua falsa miopia, tudo na esperança de ser reconhecido como alguém maior e melhor do que aqueles que você chama carinhosamente de resto, mas na verdade a literatura, essa coisa que você e seus amigos consomem com a afetação própria de quem se sabe raro, cada vez mais raro, a literatura não passa de uma interminável micareta.

    Olhe em volta. Repare. Todo mundo com seus abadás. Às vezes uns sobre os outros – e aquele cheiro típico de quem mofou não só para o próprio intelecto como também para a vida. Você sabe. Há algumas semanas estava aí, todo pimpão, compartilhando citações da micareta Philip Roth, por ocasião da morte do autor. O que não deixa de ser curioso: a morte de Philip Roth – ou de qualquer autor contemporâneo – é o auge da micareta e também o começo da dispersão.

    Há micaretas duradouras e outras que passam rapidamente pela avenida. Digo, suponho que seja uma avenida magicamente instalada no continuum espaço-tempo. E suponho ainda que haja um Deus/juiz num camarote Brahma qualquer (pun intended), dando notas para essa evolução. Há alguns anos, as micaretas Elena Ferrante e Karl Ove Knausgård passaram quase que ao mesmo tempo pela avenida. E em disparada. Evolução nota zero.


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    As pessoas seguem as micaretas literárias pelos mesmos motivos que as levam a seguir as micaretas-micaretas, isto é, diversão e sexo, aquele hedonismo juvenil vulgar e, com sorte, passageiro. Mas elas vestem o abadá também porque buscam uma sensação de pertencimento. Aquela coisa de se ver igual (ou no mínimo parecido) ao outro, de provocar uma comunicação de almas, de se deixar emocionar e contar com a empatia alheia. “Eu li o que você leu e senti a mesma coisa” é o equivalente, na micareta literária, ao beijo de língua entre estranhos na micareta-micareta.

    E, como em toda micareta, há os chatos que não gostam, que não participam e que, do alto das torres de marfim que margeiam a avenida por onde desfilam os foliões, jogam ovos – metafóricos ou não – nos pobres-diabos lá embaixo. O que os antimicareteiros não percebem, contudo, é que também são micareteiros nessa espécie de Festa de São Firmino de galinhas poedeiras, irmanados na rejeição e na sensação de superioridade – evidentemente falsa.

    Não adianta, cara. Você fica aí com essa mesóclise no canto da boca, esse potinho de aspas ao lado do computador e até essa caneta-tinteiro “para evocar a velocidade de raciocínio dos grandes mestres russos”, mas não me engana. Então deixa de não-me-toques, veste logo o abadá do seu escritor russo preferido e sai para a avenida! Bebe uma, duas, dez latas dessa poesia quente feita de milho e vomita no pé da moça o seu mais criativo versinho de acasalamento. Com sorte ela se deixa terraplanar pelas suas palavras, larga a micareta dos Cinquenta Tons de Cinza e se junta a você na triste mansarda das suas frases feitas.


    paulo polzonoff jrPaulo Polzonoff Jr.

    Jornalista, crítico literário, tradutor e escritor, autor de "Manuel Bandeira" (2006) e "O Homem que Matou Luiz Inácio" (e-book, 2016).



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