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    O futebol sempre nos explica


    Era final da década de 1990, início dos anos 2000. Me lembro de debater com amigos e colegas de universidade a postura apática da população brasileira em relação à política nacional de então. Depois da Era Collor, não tivemos movimentos significativos de povo ocupando as ruas Brasil afora. Uma coisa aqui, outra ali, porém nada de massa, de milhões bradando palavras de ordem.

    O futebol, principalmente devido às seleções campeãs mundiais de 1994 e 2002, vivia seu melhor momento. Jogadores brasileiros fazendo sucesso no exterior. Uma sequência de craques sendo eleitos os melhores do mundo pela Fifa, como Romário, Rivaldo e Ronaldinho. Lembro muito bem. Pessoas andavam com bandeiras verde-amarelas nos carros. Pintavam suas casas. Usavam camisetas dos jogadores. E nós, os jovens politizados, dizíamos assim: “Ah, se o povo fosse tão apaixonado por política como é por futebol, o país certamente não estaria desse jeito”.

    Porque para nós, é importante deixar bem claro, o país não ia bem. A gente vivia no subúrbio. Não tínhamos grana, nem perspectivas de empregos decentes (entenda-se: melhores que de nossos pais). Nós havíamos estudado em instituições públicas por toda a infância e adolescência, e na hora h, de acessar uma universidade, não tinha como passar no tal vestibular da Federal. O jeito era bancar uma particular, sabe-se lá como. Essa questão era (e ainda é, pois há um déficit muito grande nessa área) uma tremenda injustiça. “E cadê o povo para protestar?”, a gente dizia. Não havia ninguém.


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    Hoje, contudo, percebemos uma população realmente apaixonada por política. Tanto quanto as torcidas organizadas dos clubes brasileiros. Assistimos ou participamos de diversos grupos e protestos de vulto. Ruas bloqueadas e passeatas tem quase todo dia nas principais capitais. Sem contar nos milhões de 2013 e 2016. Os reflexos disso foram a derrubada de uma presidente, políticos presos, políticos presos e soltos logo depois, políticos corruptos ainda não julgados, políticos corruptos julgados e condenados, políticos com malas de dinheiro em apartamento, políticos, políticos... Uma forte indignação com os vícios de nossa classe política tomou corpo.

    O Brasil, diferentemente do que pensavam aqueles moleques em 90/00, não melhorou com essa paixão pela política. Para muitos, tornou-se mais chato, mais intolerante, menos diverso. O horizonte é desanimador. Não há esperança e perspectiva de futuro melhor. Há, como sempre houve, um forte aparato de marketing governamental para criar um discurso positivo, com um olhar generoso dos intelectuais orgânicos de ocasião. Todavia, essa mensagem de fé esbarra inevitavelmente nos R$ 13 milhões de desempregados e nos R$ 52 milhões vivendo abaixo da linha da pobreza, ambos dados atuais do IBGE.

    Existe uma diferença significativa nos dois períodos, que é a disseminação da internet. O surgimento das redes sociais fez proliferar uma enxurrada de discursos e narrativas para o que nos cerca. Algo que é salutar, a diversidade, pois oferece um vasto conteúdo para todos os gostos. Entretanto, esse livre acesso a informação acabou gerando uma dicotomia. Uma guerra de versões, que se demonstra insolúvel. Claro, você sabe do que estou falando: direita e esquerda. Até o momento, não surgiu ninguém, nenhuma figura pública ou política, realmente interessada em diluir esse maniqueísmo.

    Nossa vida se tornou essa insanidade. Não há um jantar de família, um encontro de amigos, uma reunião de trabalho, uma sessão no cinema ou uma publicação qualquer no Facebook, Twitter, Instagram, em blogs ou portais de notícias que não descambe para o famigerado combate entre os dois lados. Um escancarado Fla-Flu ideológico.

    E assim retornamos ao futebol. Ele sempre nos ajuda a entender o momento que vivemos.

    Em entrevista ao programa Comtexto, do canal Arte1, o jornalista Juca Kfouri relembrou que em 1970, quando estava em vigência a ditadura militar brasileira, contra a qual ele chegou a atuar, alguns companheiros seus de guerrilha torceram contra a seleção de Tostão, Pelé, Rivelino e Jairzinho durante a Copa do Mundo do México. Para Kfouri, além de ser uma heresia contra a alta qualidade do escrete canarinho, essa era uma atitude de total incoerência, pois o futebol sempre explicou o país. “Quem não dá ao futebol a devida importância que ele tem fica sem entender o Brasil. Ser contra o futebol é ser contra aquilo que se tem de mais íntimo. É um fator de mobilização social, não de alienação”, disse.

    De fato, o futebol é um bom parâmetro social. Tem o já citado e atualíssimo Fla-Flu, que, aplicado em um contexto sociocultural, é usado para representar um antagonismo obrigatório e irracional entre duas paixões. Assim como há o Complexo de Vira-Latas, termo cunhado por Nelson Rodrigues em um artigo no qual ele dizia que os brasileiros se sentiam inferiores aos estrangeiros em razão da falta de títulos mundiais. A máxima rodrigueana explicaria o recorrente pessimismo em relação a qualquer medida que, supostamente, não esteja em sintonia com o que há de melhor em outros países.

    Seguindo nessa linha, podemos citar a derrota humilhante de 7x1 para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo realizada aqui, em 2014. Esse momento, que, sem dúvida, se tornou uma marca, uma ferida em nossa moral esportiva, também serviu para compreender a nossa distância real para os países de primeiro mundo (ou seria mais um complexo de vira-lata?). O Brasil, diferente do que pensávamos, não decolou conforme a propaganda prometeu. Não éramos uma potência em desenvolvimento. Foi preciso um grande baque, para que a ficha caísse. Estamos falando de futebol, certo? Ou de tudo que culminou no Impeachment e na derrocada econômica?

    Aonde eu quero chegar com isso? Qual é minha tese, afinal? O trunfo do coletivo certamente é o principal caminho. Mas não há uma única resposta.

    Albert Camus, que antes de ser Nobel de Literatura foi goleiro do Racing, da cidade de Argel, talhou uma bela frase sobre o esporte bretão. “Tudo o que eu conheço da moral dos homens eu devo ao futebol”. É, talvez estejamos falando disso o tempo todo.

    P.S. Para quem gosta do assunto, sugiro assistir ao documentário Os Rebeldes do Futebol, de 2012, do cineasta francês Gilles Rof. O filme é protagonizado por Eric Cantona, que apresenta cinco atletas célebres por misturar a paixão pelo futebol com as causas sociais. Um deles é o brasileiro Sócrates.


    lucas barrosoLucas Barroso

    Jornalista e escritor, autor de "Virose" (2013), "Um Silêncio Avassalador" (2016) e "Um Gato Que Se Chamava Rex" (2018).



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