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    Francis, na corte da cultura


    Cuidado, que dá processo. Lucas Mendes, na bancada de um Manhattan Connection de outubro de 1996, alertou o amigo, mas foi em vão. Paulo Francis, com o destemor habitual, continuou: uma de suas fontes dissera que os diretores da Petrobras punham dinheiro numa conta na Suíça. Pronto: deu processo. E dos grandes. A estatal pediu na justiça americana (?!) uma indenização milionária pela afirmação. Francis morreria poucos meses depois.

    O episódio e seu protagonista foram, é claro, bastante relembrados a partir de 2014, com as descobertas da Operação Lava-Jato. Compreensível. Francis, porém, não se resume a aquele-jornalista-de-dicção-caricata-que-denunciou-a-corrupção-na-Petrobras, como têm dito alguns que, antes, nunca o estimaram muito. Para começar, ele não denunciou “a” corrupção do Petrolão; denunciou uma corrupção (assim, com artigo indefinido) que não foi o embrião do esquema iniciado em 2003 para financiar ilegalmente campanhas eleitorais e mordomias de políticos da aliança então no poder. E, mais importante, ele é muito mais que um jornalista que acusou a maior empresa do país.

    Deveria ser lembrado, em especial por quem trabalha com informações e ideias, pelo extraordinário comentarista cultural e político que foi, um dos principais articulistas da história da imprensa brasileira. Vale a aliteração: Francis faz falta. Embora, por vezes, ele exagerasse nas avaliações e no tom em que as expunha, a maioria de seus textos era de uma erudição e ironia, afora o já mencionado destemor, que quase não se veem mais hoje. E de acertos também.


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    São qualidades que se notam nos escritos de Paulo Francis: Diário da Corte (ed. Três Estrelas), coletânea lançada em 2012. Difícil destacar só três deles, mas vá lá: no extenso Reafirma-se o Espírito Liberal de 1776 (1976), Francis resume e explica a história dos Estados Unidos; em Freud é o Herói Deste Século (1988), examina as principais ideias de uma de suas grandes influências intelectuais (“Freud permeia a cultura ocidental inapelavelmente”); e em Cinema à Moda da Casa (1989) traça um retrato sem photoshop do cinema brasileiro, que ainda cabe hoje, na maior parte – percebe “falta de realismo crítico”, personagens caricatos e “populismo demagógico” nos filmes daqui e aponta o “clube do elogio mútuo” no meio como um dos obstáculos a seu arranque artístico.

    Francis ia igualmente bem nos formatos curtos. Na coluna Diário da Corte, que manteve de 1977 até a morte, em 1997, abria com uma crônica e depois seguia para notas críticas sobre livros, filmes e costumes, sempre com um vigor e uma argúcia que contagiavam (e irritavam) leitores. Observações certeiras que deixou nessas páginas foram compiladas, em forma de verbetes, por um amigo seu, o jornalista e escritor Daniel Piza (1970-2011), em Waaal - O Dicionário da Corte (Cia. das Letras, 1996). Em um comentário de 1988, Francis parece descrever a atual Geração Facebook: “A juventude de hoje pensa que inventou alguma coisa. E inventou. Alardear o que faz. Só”. Naqueles sobre arte, dava aula: “O segredo da grande arte é ser tão pessoal e estreita que, pela força do seu exclusivismo, fala com o mundo inteiro”; “O verdadeiro drama é polivalente, mescla um número enorme de atitudes, por vezes contraditórias, como em Shakespeare. Alguém mais odioso ou sublime do que Hamlet?”. Seu entusiasmo com a alta literatura era frequente ali: de Machado de Assis, disse que “fica bem em qualquer língua. Para encontrarmos rivais e superiores, temos de ler os russos, alguns franceses e ingleses, estes do século XIX, e Proust. É isso aí”, e que sua Capitu é “tão indelével como madame Bovary”. Fazia suas escolhas também em literatura americana: Complexo de Portnoy, de Philip Roth, autor que chegou a entrevistar, era para ele o “maior romance cômico já escrito”, e Emily Dickinson, “a maior poeta mulher de todos os tempos” (“até Elizabeth Bishop” - pôs num P.S. para o livro).

    Também apreciador de artes visuais, Francis tinha o século XX como o período mais brilhante para a pintura (Picasso, Braque, Matisse) desde a Renascença. Só não conseguia engolir o dito Pós-Modernismo, preponderante a partir dos anos 1970. Não há registro de elogio dele a alguma instalação ou videoarte. Sobre o trabalho do brasileiro Cildo Meirelles, declarou que era “uma das piores porcarias” que já vira. A uma exposição da “conceitual” americana Jenny Holzer, em 1990, reagiu assim, num de seus comentários ao Jornal da Globo: “É uma imitação de Andy Warhol, dos mobiles de Calder e do botequim a gás neon da esquina. [...] Esse é o triste fim do Modernismo, que hoje mais parece publicidade do que arte” (é de se pensar o que ele diria das hoje onipresentes performances e de nomes como Damien Hirst e Jeff Koons, mais talentosos para self-promotion do que para arte). Às vezes tal objeção o fazia, em contrapeso, aplaudir intensamente pintores figurativistas que talvez não o merecessem tanto – caso do inglês David Hockney, sobre quem, em 1988, também num Jornal da Globo, disse: “Hockney não cansa o bestunto do público. Quer nos agradar, e agrada. [...] É o que Andy Warhol gostaria de ter sido. Mas, ao contrário de Warhol, Hockney ficará para sempre”. Se estivesse aqui, Francis teria visto Hockney se tornar, em novembro último, o mais caro artista vivo, ao ter uma tela vendida por mais de 90 milhões de dólares em Nova York.

    Vários Francis – Hoje, algo mais também lhe seria possível: ser pisoteado na Web. Francis era dono de um humor indócil (“Ator, se cair de quatro em dia de chuva, só levanta com guindaste”) e não suportava a patrulha do politicamente correto, o conjunto de posturas supostamente apropriadas para o trato com minorias sociais que o meio acadêmico americano, na década de 1990, começava a irradiar para o mundo. Os pós-estruturalistas Derrida, Foucault e Lacan, de cujas ideias o politicamente correto é um subproduto, formavam para ele um “trio sinistro”. Por esse caráter insubmisso, ter se tornado um conservador na maturidade e ter dirigido frases deselegantes a personalidades negras ou LGBTs, Francis cultivou, entre detratores, certa fama de racista e antigay. Em 1990, contudo, escreveu que “Minha receptividade às pessoas é individual. Formo minha opinião de indivíduos, e não de raças. Racismo é jeca” e que um homossexual “não deve ser perseguido, humilhado ou discriminado por uma sociedade civilizada”. Eram vários os Francis.

    Meios de ler e ver/ouvir a sua obra são, também, vários. Depois de Paulo Francis: Diário da Corte, o jornalista Nelson de Sá fez outra seleta de textos do autor, em A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo, de 2016. Nos anos 1990, além de O Dicionário da Corte, Francis lançou Trinta Anos Esta Noite (Cia. das Letras, 1994), suas memórias do golpe de 1964. Publicações dos anos 1970, como os (não tão bons) romances Cabeça de Papel e Cabeça de Negro e as coletâneas Certezas da Dúvida e Paulo Francis Nu e Cru (nesta, não perca a resenha do filme Lacombe, Lucien, de Louis Malle, e o ensaio L’Affaire de Mon Cou, redigido após se submeter a uma cirurgia no pescoço), só são encontráveis em sebos. O documentário Caro Francis (2010), de Nelson Hoineff, os comentários para a Rede Globo aqui citados e trechos de edições do Manhattan Connection, programa então exibido pelo canal GNT, estão no Youtube. Sirva-se à vontade, leitor, da contundência sofisticada de Francis. Não se fazem mais muitos assim. Mas cuidado, que isso pode desencadear um poderoso processo – intelectual.

    * Texto originalmente publicado no Caderno de Sábado do jornal Correio do Povo, em 29 de dezembro de 2018.


    lucas colombo assinaturaLucas Colombo

    Jornalista, professor, colaborador de revistas e cadernos de cultura, editor do Mínimo Múltiplo, organizador do livro "Os Melhores Textos do Mínimo Múltiplo" (Bartlebee, 2014).


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